Na Trilha da História: 1967, nasce o Tropicalismo trazendo suas músicas até hoje tão jovens

  • 30/12/2017 - 07h41

Apresentação Isabela Azevedo

Olá, eu sou Isabela Azevedo. Está começando mais uma versão reduzida do Na Trilha da História. Neste ano de 2017, celebramos os 50 anos do tropicalismo, um movimento artístico que aproximou opostos, gerou muita polêmica e revelou dois dos mais importantes compositores brasileiros, Caetano Veloso e Gilberto Gil. Nosso entrevistado é o jornalista e crítico musical Carlos Calado, autor do livro Tropicália: uma revolução musical.

 

Sonora: “E esse grupo, ele sentia a necessidade de que o ambiente musical da época fosse mais arejado. Porque havia, assim, um certo policiamento político e musical. De alguma maneira, também um certo elitismo, vindo, de alguma maneira, pelo pessoal que vinha da bossa-nova.”

 

Mas, afinal, como tudo começou? O cenário era o 3º Festival de Música Popular Brasileira da TV Record, de 1967.

 

Sob vaias e aplausos, dois baianos ousaram inserir a guitarra elétrica na música popular brasileira. Caetano veloso apresentou a música Alegria, Alegria, ao lado do grupo argentino Beach Boys.

 

Sonora: “Foi justamente num festival da TV Record que Alegria, Alegria trouxe esse elemento, teoricamente, novo, que foi a guitarra elétrica e que, naquela época, acabou sendo tratada de uma maneira, que eu hoje dou risada. Há exatos 50 anos, houve uma cena que eu considero patética, de um momento marcado por visões musicais e políticas da época, que foi uma passeata contra o uso da guitarra elétrica, no centro de São Paulo. Passeata comandada pela Elis Regina, que era uma das artistas na época que via a guitarra elétrica como algo nocivo para a música brasileira.”

 

Já Gilberto Gil, influenciado pelo maestro Rogério Duprat, colocou no mesmo palco uma orquestra, a batida da capoeira e os subversivos Os Mutantes, formado por Rita Lee e pelos irmãos Arnaldo e Sérgio Batista. Assim, o público conheceu Domingo no Parque.

 

Sonora: “Aí, você vê um encontro muito interessante, de formações muito diferentes. Os Mutantes eram três moleques roqueiros e debochados. Você tem Gil e Caetano, da Bahia, que vinha com uma influência regional muito forte, e toda riqueza da música baiana. E você tinha o Rogério Duprat, que tinha, digamos, naquele momento, um conhecimento mais sofisticado, mais avançado em termos de misturar a influência da música clássica e da música contemporânea com a música popular. Foi um encontro muito feliz, mas que chocou muita gente.

 

Uma nova estética surgia partir da criatividade, da mistura de referência dos dois compositores. Caetano, então, compôs uma música que mais parecia a síntese das imagens que rondavam a cabeça dele. Por insistência de um amigo, o compositor pegou emprestado o nome de uma exposição de Hélio Oiticica. E batizou a canção de Tropicália.

 

Sonora: “E essa música, então, ouvida no estúdio ainda, sem título, por uma pessoa que era muito atuante na época, era produtor de estúdio, o Luiz Carlos Barreto, que disse que a música lembrava uma exposição que ele tinha acabado de ver, do Hélio Oiticica. O Caetano ficou um pouco em dúvida, no início. Mas foi daí que veio o título que acabou batizando, por via indireta, todo o movimento.”

 

Em 1968, foi lançado o disco Manifesto do Movimento, com participação de Gil, Caetano, Os Mutantes, Gal Costa, Nara Leão, Torquato Neto, Capinã, Tom Zé.

 

Sonora: “Esse disco é um disco que você ouve e você custa a acreditar que ele tenha essa idade. Porque ele é um disco tão vivo, tão transgressor, é uma música que parece muito fresca. Muito sofisticada e com uma pegada muito jovem. E, dificilmente, você vai acreditar que esse disco tenha 50 anos.”

 

Esta foi a versão reduzida do Na Trilha da História. O episódio completo tem 55 minutos e traz, além da entrevista, na íntegra, com o escritor Carlos Calado, músicas tropicalistas. Para ouvir, acesse radiosebc.com.br/natrilhadahistoria. E se você tiver alguma sugestão de tema para o programa, envie um e-mail para culturaearte@ebc.com.br.

 

 

Na Trilha da História: Apresenta temas da história do Brasil e do mundo de forma descontraída, privilegiando a participação de pesquisadores e testemunhas de importantes acontecimentos. Os episódios são marcados por curiosidades raramente ensinadas em sala de aula. É publicado semanalmente. Acesse aqui as edições anteriores.

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