Há décadas indígenas lutam contra o preconceito ao mudarem para centros urbanos

  • 17/04/2017 - 09h33

Maíra Heinen

A Rádio Nacional da Amazônia começa a veicular, nesta segunda-feira (17), uma série de cinco matérias sobre a situação dos índios nos tempos atuais. O especial será distribuído pela Radioagência Nacional.


A matéria desta segunda-feira mostra a trajetória e os desafios enfrentados pelos indígenas para viver nos centros urbanos.

 

 

Cidadão, citadino, habitante da cidade, urbano. Ser morador de cidade pode ser algo banal para muitos. Mas ainda é recente e desafiador se apresentar como indígena e habitar nos centros urbanos do Brasil.


“Eles iam paras cidades e não diziam que eram indígenas. Ocultavam a sua origem e também ocultavam as suas referências culturais, digamos assim”, afirma a antropóloga Lúcia Helena Rangel, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).


Lúcia Helena revela que desde a colonização a presença indígena nas cidades é constante. Mas, há décadas, a cidade era um espaço proibido. Eles não se apresentavam como indígenas, com medo do preconceito e represálias do antigo Serviço de Proteção ao Índio.

 

Foi na década de 1950, com o surgimento das indústrias, que o processo de migração se intensificou. Moradores do campo seguiam em busca de emprego nas fábricas e, com os indígenas, não foi diferente.

 

Hoje, estar na cidade sem ocultar a ancestralidade e as próprias referências ainda é uma luta para mais de 315 mil indígenas, segundo dados do último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).


O principal enfrentamento é o preconceito. Quem revela é o presidente da Organização dos Índios da Cidade da capital roraimense, Eliandro Pedro de Sousa, do povo Wapixana. “Forte preconceito e discriminação. E os indígenas que moram nas cidades são realmente os que enfrentam a situação assim, no dia a dia, constantemente.”


A própria Funai, que tem como missão promover os direitos dos povos indígenas no Brasil, sofre o preconceito e percebe a situação dos indígenas que moram nas cidades, afirma o coordenador regional da Funai em Roraima, Riley Mendes.


“Essa questão do preconceito ela é até com os servidores, na realidade é isso. Bom, se é com o servidor da Funai, imagine pra questão do próprio indígena. Existe essa discriminação? De fato existe.”


Quase metade da população indígena do país está nas cidades, 49%. Mas, nem por isso, eles deixaram de ser indígenas e essa é a principal bandeira de quem não está nas aldeias.


O padre Robert Marie De Zalicourt, do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), no Amazonas, acredita que para manter as próprias referências na cidade é preciso estar unido.


“Tem famílias indígenas em todos os bairros de Manaus, mas não são reconhecidos. Então, eles têm tendência de perder a sua cultura. Eles estão mantendo essa especificidade quando estão unidos e organizados”, afirma Robert Marie.


Em todo o país, São Paulo é a cidade com maior população indígena urbana, com cerca de 12 mil habitantes. Em seguida vem São Gabriel da Cachoeira (AM), com pouco mais de 11 mil, e Salvador (BA), com mais de 7,5 mil. Cada um com seu cotidiano urbano, todos cidadãos brasileiros. Todos povos indígenas.

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