Denúncias do seringalista sobre ameaças de morte contra líderes rurais foram desprezadas até o fim

  • 22/12/2018 - 10h02

Renata Martins

Em 22 de novembro de 1988, ao responder a questionamento de Chico Mendes sobre as medidas adotadas pelo estado para proteger lideranças ameaças no acre, o governador Flaviano de Melo disse o seguinte, em um programa de rádio:

 

“O Chico Menes diz que tem 11 atentados (…) Chico Mendes está vendo atentado por todos os lados.”

 

O áudio, recuperado e exibido no Memória Brasil, da Rádio MEC, está arquivos da Empresa Brasil de Comunicação (EBC).

 

Apesar do desdém do governador, quando foi assassinado dento de casa, um mês depois, dois policiais militares faziam a segurança de Chico Mendes.

 

Por diversas vezes, o ambientalista denunciou as ameças de morte contra ele e outras lideranças marcadas para morrer. Em sua última entrevista, ao jornalista Edilson Martins, para o Jornal do Brasil, no início do mês de dezembro de 1988, ele falou sobre a eminência de ser morto.

 

Disse, inclusive, quem mais o ameaçava publicamente: os irmãos Darly e Alvarinho Alves, fazendeiros em Xapuri. A entrevista só foi publicada após a morte do seringueiro.

 

Era uma quinta-feira, início de noite. Com uma toalha no ombro, Chico Mendes não precisou nem abrir toda a porta da cozinha para ir tomar banho nos fundos de casa, quando foi atingido pelo tiro de escopeta vindo do quintal escuro.

 

Morreu aos 44 anos, na frente da esposa, Ilzamar, dos filhos pequenos Sandino e Elenira e dos dois policiais que faziam sua segurança, a menos de 50 metros da delegacia.

 

Para o advogado que trabalhou com Chico Mendes como assessor sindical, Gumercino Rodrigues, o assassinato de lideranças foi o método utilizado para inibir o avanço do movimento dos trabalhadores rurais. Segundo Guma, como é conhecido, os latifundiários optaram por usar a mesma fórmula aniquilando Chico Mendes, mas o resultado não foi o esperado.

 

Um ano após a morte do ambientalista, o número de assassinatos em conflitos agrários caiu quase pela metade. Numa década sangrenta, em que quase todo ano, mais de uma centena de pessoas foram mortas por questões agrárias, 1989 registrou 56 mortes. Os dados estão nos cadernos Conflitos no Campo Brasil, divulgados anualmente pela Comissão Pastoral da Terra. Um dos coordenadores da CPT, Ruben Siqueira fala do que avançou após a morte de Chico Mendes. Segundo ele, significou pressão sobre o governo brasileiro em relação ao meio ambiente e ao direito da terra.

 

Em 1990, Darly Alves da Silva foi condenado a 19 anos de prisão por ter mandado matar Chico Mendes. Seu filho, Darci Alves Pereira, apontado como o executor do crime, também foi condenado. A dupla fugiu da prisão três anos depois. Recapturados em 1996, saíram da cadeia em 1999.

 

Amigo e companheiro de luta de Chico Mendes, Guma relata o que ficou daquele 22 de dezembro.

 

Sonora: “Morto. Ele não está morto. Se tivesse, você não ia querer conhecer essa história. Aqueles que pensam que o mataram tornaram Chico imortal.”

 

Na viagem a Xapuri, o último local que visitei foi o túmulo do líder seringueiro. Na lápide, sua imagem com sorriso e a frase: Chico Mendes Vive!

 

*Sonoplastia: José Maria Pardal

Ir para a versão desktop