Em 11 meses, quase 400 crianças da Venezuela entraram no Brasil sozinhas

  • 11/10/2019 - 11h00

Amanda Cieglinski

Uma fuga da fome e da pobreza. Em média, todos os dias 500 pessoas atravessam de Santa Helena, na Venezuela, para Pacaraima, no Brasil. Mas uma situação consegue ser ainda mais dramática: crianças venezuelanas que passam pela fronteira sozinhas.

 

Levantamento da Defensoria Pública da União apontou que em um período de 11 meses, quase 400 crianças chegaram ao Brasil totalmente desacompanhadas. Cerca de 1,5 mil vieram separadas dos pais e 1,7 mil com documentação insuficiente.

 

O defensor público federal Thiago Parry explica o contexto dessa entrada.

 

"Histórias tristes, pessoas que de fato estão fugindo de um futuro tenebroso. Às vezes, os pais foram mortos, às vezes no fluxo migratório se perdeu contato, outras vezes simplesmente a criança ou adolescente nunca teve contato [com os pais], inclusive na Venezuela e continua nessa situação após o fluxo migratório dentro do Brasil. Há relatos de crianças que caminham por mais de seis ou sete dias sozinhas ou acompanhadas por pessoas conhecidas no meio do caminho."

 

No abrigo Pedra Pintada, em Boa Vista, já foram recebidos vários meninos e meninas imigrantes. Desde maio, um garoto venezuelano de 11 anos vive no local.

 

Ele foi trazido pelo Conselho Tutelar, após ter sido encontrado nas ruas da capital sem a companhia de nenhum adulto, como conta a gerente do abrigo, Ivanilde Texeira.

 

" A criança chegou na instituição bem retraída. A gente percebia que ela estava com medo, atordoada, fragilizada, não conseguia passar informação, a gente percebeu que ela estava psicologicamente fragilizada."

 

Não há informações de como a criança chegou até Boa Vista sozinha, mas a Cruz Vermelha e o consulado trabalham para tentar identificar a família que ficou na Venezuela.

 

"Ele evita falar da situação dele. A gente já tentou de todas as formas, mas ele evita, a gente percebe que ele não quer falar da família. Recentemente, nós tivemos uma conversa com ele e ele manifestou a vontade de voltar para a família. Mas para a gente entregrar essa criança, a gente precisa saber informação da família, aonde essa família está para a gente entregar essa criança com segurança para a família."

 

Além do menino que chegou sozinho, há outros três bebês filhos de venezuelanos vivendo no abrigo. Entre eles, um casal de gêmeos que nasceram na maternidade de Boa Vista e lá foram abandonados pela mãe e vieram para o abrigo com pouco mais de 20 dias.

 

Não há informações sobre a mãe e, se nenhum familiar for encontrado, devem ser encaminhados os trâmites para que os bebês sejam incluídos no Cadastro Nacional de Adoção.

 

Ao entrar no Brasil, por Pacaraima, nas instalações da Operação Acolhida os venezuelanos passam por triagens em que são conferidas as documentações e é feita toda a identificação. É aí que a situação das crianças é analisada pela defensoria, como explica o defensor Thiago Parry.

 

"Se a criança estiver acompanhada por familiares, da família extensa a dizer tios, avós e for verificado pelos assistentes sociais que, de fato, é uma situação regular, não há risco, essa criança não está sendo traficada, não está sendo vítima de nenhum aliciamento, ela é encaminhada para o pedido de refúgio. Se essa criança vem absolutamente desacompanhada, ela vai ser tratada aqui como uma criança brasileira que fosse encontrada no meio da rua. Ela vai ser institucionalizada, ela tem os mesmos direitos que uma criança teria a partir da solicitação de refúgio."

 

Ao menos enquanto estiverem no abrigo, as crianças podem dormir em quartos limpos, recebem a atenção das assistentes e as seis refeições por dias garantem a barriguinha cheia. Realidade muito diferente da que o menino, agora matriculado pela primeira vez numa escola, vivia antes nas ruas.

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