Serasa: em um ano, 900 mil pessoas com mais de 60 anos ficaram inadimplentes

  • 12/02/2020 - 15h59

Mariana Jungmann, da TV Brasil

A inadimplência entre os idosos é a que mais cresce no Brasil. E eles protagonizam uma contradição, de acordo com dados do Serasa Experian: ao mesmo tempo em que têm a melhor pontuação de crédito, por causa do longo histórico e da aposentadoria, são também os que mais têm deixado de pagar as contas em dia.

 

Entre outubro de 2018 e outubro de 2019, 900 mil pessoas com mais de 60 anos não cumpriram algum dos compromissos financeiros. Com elas, são 9,8 milhões de brasileiros, dessa faixa etária, inadimplentes. Um crescimento de mais de 10%.

 

Para a economista do Serviço de Proteção ao Crédito Marcela Kawauti o empréstimo consignado, aquele descontado em folha e muito oferecido a aposentados e pensionistas, acaba levando as pessoas ao alto endividamento.

 

"Quem não se programa para pegar consignado acaba se enrolando em outras contas. O limite dele é 30% do salário. A pessoa precisa saber que ela vai receber 30% a menos do que está acostumada. Ela vai ter que acostumar a viver naquele novo padrão de vida. Mas as pessoas não fazem esse planejamento."

 

A facilidade de crédito e a falta de educação financeira são algumas das explicações sobre como os idosos se endividam. Mas o motivo principal está ligado a questões muito mais profundas. Geralmente envolvem a relação com a família e a dificuldade em lidar com a queda na renda após a aposentadoria, com explica o educador financeiro francisco rodrigues.

 

"Existem diversos comportamentos. Tem aquele que o idoso carregou ao longo da vida, com a ideia de ser o provedor da casa. Às vezes ele sustenta os filhos, os netos, os bisnetos. E eles acham que são os salvadores da pátria. A maioria dos problemas dos idosos está dentro da casa. Pegar empréstimo, comprar carro para filho. Ele não consome para ele. Eu diria que 20% do consumo do idoso é para ele. O resto é para a família."

 

Na vida do seu João e da dona Maria tudo foi alcançado com um plano muito bem definido: economizar 10% de tudo que ganhavam. Assim, ele que era eletrotécnico e ela professora, conquistaram a casa que moram, aposentadoria complementar e outros bens.

 

"Na época que eu queria economizar para a gente ter as coisas, botei o 'cadernão'. Despesa rachada, meio a meio. Forçava ela a colocar metade da casa. Eu guardava. Com essa metade fui aplicando. Foi vários anos assim. Como ela era mão aberta e sempre que todo mundo pedia dinheiro ela dava, então seguramos."

 

O seu João, mais controlado, teve que cobrar disciplina da dona Maria, que se diz desapegada com o dinheiro.

 

Mas, apesar de ver os pais economizarem ao longo da vida, a Mônica, filha deles, precisou contratar um consultor financeiro para aprender a poupar.

 

"Eu penso que é porque ele é o provedor, ele que cuida das finanças. E ele não passou isso nem para mim, nem para o meu irmão. Poupar não, ele não me ensinou. Não sou uma pessoa endividada. Esse negócio de ter o nome sujo ele sempre cobrou. A única coisa que você tem é seu nome. Não deixe ninguém sujar. [Foram] esses os conceitos que ele me passou de educação financeira."

 

Se engana quem pensa que a dificuldade da Mônica e da dona Maria em guardar dinheiro é um comportmento típico das mulheres. De acordo com uma pesquisa do Serasa, homens e mulheres têm praticamente o mesmo nível de inadimplência. Mas elas tendem a ter mais pagamentos atrasados em contas de casa, como água, luz e gás. Já eles acumulam mais dívidas com cartões de crédito e bancos.

 

No caso da mônica, o investimento em educação financeira trouxe frutos não apenas materiais. Ela repassou aos filhos as técnicas para controlar o dinheiro, como anotar o que gasta e fazer planos de curto, médio e longo prazos, com poupanças específicas para cada um. E agora, diz que não pretende dar nada de mão beijada para eles.

 

"Ano que vem pretendo viajar, estou me organizando para viajar. Não vai dar para [ir com a] família toda, mas eles ainda estão novos. Eles vão saber o que fazer para ir ao Japão."

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