Ensino a distância aumenta desigualdade socioeconômica entre estudantes, revela pesquisa

  • 29/06/2020 - 13h26

Anna Luisa Praser

[BG Verso de cordel]

 

Esse verso, trecho de um cordel escrito pelo professor José Gilson Lopes, descreve um pouco da nova rotina escolar em tempos de pandemia. O educador, que vive em Fortaleza, narra, com rimas, os desafios enfrentados para que o conteúdo chegue aos alunos.

 

Esforços esses que têm tido resultados. Uma pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha, a pedido do Itaú Social, Fundação Lemann e Imaginable Futures, mostrou que 74% dos estudantes matriculados na rede pública de ensino em todo o país recebem algum tipo de atividade – materiais impressos, online ou mesmo videoaulas, durante a suspensão das aulas.

 

Além disso, de acordo com o levantamento, a maioria dos alunos que acessam essas atividades – 84% - disseram dedicar mais de uma hora por dia aos estudos.

 

A análise, no entanto, mostrou a discrepância entre as regiões brasileiras no que diz respeito ao acesso à internet. Das famílias entrevistadas, 41% declararam não ter internet banda larga. Nas regiões Norte e Nordeste, esses índices são ainda maiores e chegam a 63% e 47%, respectivamente.

 

Os pretos e economicamente menos favorecidos são os mais impactados, tanto pela falta de acesso à internet quanto por outras situações, como aponta a gerente de Pesquisa e Desenvolvimento no Itaú Social, Patricia Mota Guedes.

 

Outro cenário avaliado foi a quantidade de dispositivos para se conectar à internet. Embora 96% dos entrevistados tenham declarado ter, pelo menos, um equipamento, como smartfone, tablet, computador e mesmo smart TV, na prática, isso não é suficiente para garantir que os alunos consigam acessar os conteúdos das aulas e atividades.

 

O professor de língua portuguesa, José Gilson Lopes, vive esse cenário de perto e relata que muitas vezes o planejamento da aula não atinge o objetivo.

 

Erlaine Cristina Reis, mãe de uma aluna do 8º ano da Escola Municipal de Tempo Integral Professor Ademar Nunes Batista, também na capital cearense conta que, apesar de a filha não ter tido dificuldade, convive com outras pessoas que não tiveram a mesma sorte.

 

A nova rotina de ensino, remota, revela também uma outra faceta: muitos dos entrevistados, sobretudo do ensino médio, apresentam dificuldade de acompanhar os conteúdos. Esse ponto, atrelado à falta de acesso à internet e de dispositivos, tem gerado incerteza nos pais: um terço dos entrevistados – 31% - temem que os filhos abandonem a escola.

 

Ao todo, foram realizadas 1.028 entrevistas com pais ou responsáveis por 1.518 alunos da rede municipal e estadual de ensino, em todo território nacional. Dos que responderam, 55% se declararam pardos ou pretos, 37% brancos, 2% amarelos, 2% indígenas. E 4%, outros.

 

* Áudio substituído às 10h58 de 30/06/2020 devido à ampliação da reportagem

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