Estudo mostra que trabalhador rural que manuseia agrotóxicos pode sofrer alteração genética

  • 28/07/2018 - 09h04

Sumaia Villela

Chapada do Apodi. Divisa entre Ceará e Rio Grande do Norte. Uma terra antes ocupada pela agricultura familiar, mas que na década de 1990, com a instalação de um perímetro irrigado, começou a receber multinacionais produtoras de frutas. É, também, uma região conhecida nacionalmente pelo uso intenso de agrotóxicos.

 

E foi lá que o professor de Medicina da Universidade Federal do Ceará, Ronald Pinheiro, fez descobertas sobre mudanças genéticas sofridas por trabalhadores rurais que lidam diretamente com os produtos.

 

Ele encontrou deficiências nos genes que reparam o DNA. Esse quadro, segundo o professor, indica maior probabilidade de um futuro com câncer.

 

Sonora: “O processo de desenvolvimento de um câncer dura anos a décadas. O que a gente tá mostrando que essas alterações geram o que a gente chama do conceito de instabilidade genômica, ou seja, o genoma da pessoa está com funcionamento anormal. Essas mesmas alterações que a gente encontrou na medula deles são alterações encontradas em pacientes com câncer”

 

O professor explica que os testes foram realizados em trabalhadores do agronegócio, da agricultura familiar, e mais um grupo menor da agroecologia.


Sonora:  “80% com exposição aos agrotóxicos e cerca de 15 a 20% são indivíduos que trabalham na agricultura que não tem contato com agrotóxico. Quando a gente compara o exposto e não exposto, os resultados são realmente bem impressionantes. A aplicação do agrotóxico em si parece ser um fator determinante”

 

Essa é a mais recente pesquisa realizada na Chapada do Apodi, mas não a única.

 

A região já é conhecida por outros estudos que relacionaram a exposição intensa ao agrotóxico a problemas graves de saúde.

 

Virou tema de documentários e lá um caso chamou a atenção do país: a morte em 2008 de Vanderlei Matos da Silva por insuficiência dos rins. Ele trabalhou na multinacional Fresh Del Monte por cerca de 3 anos, na armazenagem e mistura dos produtos que eram pulverizados nas plantações. A viúva, Maria Gerlene dos Santos, lembra como foi a evolução da doença.

 

Sonora:  “veio ficar os olhos amarelados, as pontas dos dedos rachadas. Aí foi fazer uma consulta em Fortaleza, o médico resolveu deixar ele internado lá. Mas foi bem rápido. Quando a gente soube da doença dele até quando ele faleceu foi mais ou menos um mês”


Gerlene entrou na Justiça do Trabalho em 2009,  buscando a reparação. O caso foi até a última instância, e no ano passado ela saiu vitoriosa.


Sonora:  “Quando ele estava vivo ele dizia para mim que se ele escapasse dessa ia colocar a empresa na Justiça. Foi por isso que me deu forças para eu colocar. Ainda mais porque como ele não está mais o direito vai ficar para o meu filho e o filho dele. Porque o que a gente pensa de bom é o futuro do filho da gente”


Em setembro de 2017 o pagamento foi autorizado, mas até hoje, 10 anos depois da morte, ela não recebeu a indenização, que ultrapassa os R$ 500 mil. Segundo o advogado Cláudio Silva, ocorreu um problema no depósito judicial.


Sonora:  “A gente percebe uma protelação da empresa. Foi um detalhe técnico, jurídico, mas o fato é que a empresa deveria pagar e não pagou ainda. Apesar dessas questões é uma vitória extraordinária. Nos parece que é o primeiro caso no Brasil onde há uma condenação em razão da exposição continuada de um trabalhador ao agrotóxico”


De acordo com a Justiça do Trabalho no Ceará, a Vara de Limoeiro do Norte determinou que os bancos prestem esclarecimentos sobre o problema. Já o setor jurídico da Fresh Del Monte disse que a empresa não comenta casos judiciais.

 

Em nota, o Ministério da Saúde respondeu que trabalha na elaboração de diretrizes para diagnóstico e tratamento de pessoas intoxicadas por agrotóxico. A pasta diz ainda que existe um setor específico para acompanhar populações expostas à substância, com o objetivo de reduzir riscos à saúde.


Sonoplastia de José Maria Pardal.

 

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