"Nossa maior preocupação é que países adotem medidas para salvar vidas", diz diretor-adjunto da Opas

  • 26/03/2020 - 15h00

Entrevista a Priscilla Mazenotti

Nas Américas, a recomendação da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), com relação ao coronavírus, é a adoção de medidas de distanciamento social que evitem a propagação rápida e, consequentemente, a sobrecarga do sistema de saúde. Medidas essas que têm que ser associadas a uma eficaz estratégia de atendimento pelo sistema de saúde, baseada na atenção primária, na disponibilidade de leitos de UTI, no treinamento dos profissionais de saúde e também na sua proteção com o uso de equipamentos de segurança. E a Opas tem trabalhado junto com os Ministérios da Saúde de todos os países das Américas para que tenham não só orientações adequadas, mas também apoio material caso precisem.

 

Quem detalhou essas ações foi o diretor-adjunto da entidade e representante do escritório regional para as Américas da Organização Mundial da Saúde (OMS), Jarbas Barbosa da Silva Júnior. Médico sanitarista e epidemiologista, Jarbas Barbosa tem vasta experiência, nacional e internacional, em temas referentes à saúde pública, epidemiologia aplicada aos serviços de saúde, vigilância em saúde, prevenção e controle de doenças e agravos. Foi diretor-presidente da Agência Nacional de Vigilância em Saúde (Anvisa) e ocupou, por duas vezes, o cargo de secretário de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde. Também foi secretário executivo e secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do ministério.

 

Rádio Nacional - Qual o balanço sobre as ações que vêm sendo tomadas pelo Brasil?

Jarbas Barbosa - Todos os países das Américas estão implantando ações de resposta a essa pandemia, que é uma pandemia muito desafiante, porque o vírus demonstrou uma capacidade de transmissão, de expansão entre os países e continentes muito rápida. Sabemos que a grande maioria dos casos são casos leves, mas, em determinado percentual, que pode chegar a até 20%, os casos vão precisar de atenção hospitalar.

Nesse sentido, muitos países têm adotado as recomendações que nós estamos fazendo, a OMS, a OPAS, de adotar medidas de distanciamento social, medidas que são capazes de reduzir a velocidade de transmissão e, com isso, evitar que os hospitais, as UTIs fiquem sobrecarregadas.

Nós não podemos deixar acontecer o que houve na Itália. A Itália não tomou medidas no momento adequado, a transmissão explodiu numa velocidade muito grande e pessoas que precisavam de leitos de UTI e respirador, não tinham acesso, pois estavam sobrecarregados.

É muito importante que, neste momento, que países como o Brasil, países das Américas, que estão em situação diferente, mas enfrentando o que chamamos de transmissão comunitária, que eles avaliem com muito critério o momento em que se encontram e adotem as medidas adequadas pra reduzir a velocidade da transmissão, preparem seus hospitais, a atenção primária, com equipamentos de proteção para os profissionais, com treinamento, com estratégias para evitar a sobrecarga, como teleconsulta, telemedicina, triagem adequada. Há várias recomendações que temos feito e cada país implanta conforme sua realidade.

 

Rádio Nacional - Qual a principal preocupação hoje, a capacidade de atendimento dos países, as vulnerabilidades?

Jarbas Barbosa - A principal preocupação hoje é que todos os países implementem as medidas adequadas para salvar vidas, para evitar que a sobrecarga dos serviços de saúdem terminem fazendo com que pessoas que precisem poderiam receber o cuidado adequado não recebam. É um raciocínio simples que podemos fazer. Se eu tenho 1.000 casos e só 10% precisam de UTI, nós estamos falando de 10 pessoas precisando de UTI. Mas se nós temos 100 mil casos e 10% que precisam de UTI, então estamos falando de 1.000 pessoas precisando de UTI. Se só tenho 500 leitos de UTI, no primeiro cenário, isso seria mais que suficiente, mas, no segundo, 500 pessoas não teriam acesso a leito.

Então, é muito importante reduzir a velocidade de transmissão e, ao mesmo tempo, nos serviços de saúde tomar as medidas adequadas, por exemplo, suspendendo férias, cirurgias que não sejam de emergência sejam canceladas. De maneira que se possa ter todos os recursos fazer esse enfrentamento. Enquanto se reduz a velocidade na sociedade, nos serviços de saúde tê-los bem preparados.

Nós temos, claro, preocupação com países onde os sistemas de saúde são mais frágeis. Nossa preocupação central hoje é com o Haiti, porque o Haiti tem um sistema de saúde frágil há muito tempo, uma instabilidade política, dificuldades do governo de se organizar. Enviamos uma missão técnica ao Haiti, nossa representação lá estamos funcionando continuamente para dar apoio ao ministério daquele país.

A outra preocupação é a Venezuela, porque tem dificuldade de acesso a serviços, a produtos de saúde, medicamentos, vacinas, insumos essenciais, muito grande. Como temos representações em todos os países da América Latina, essas representações estão trabalhando, prestando cooperação técnica aos ministérios para que tomem as melhores decisões no combate ao covid-19.

 

Rádio Nacional - E como ficam as campanhas relativas a outras doenças, como dengue, por exemplo? Para evitar aquilo que se chama de infecção cruzada?

Jarbas Barbosa - Nós lançamos uma recomendação da preservação desses programas essenciais de saúde pública – HIV, tuberculose, a dengue – é importante que se mantenha esses programas de saúde, com medidas relativamente simples. É importante também que as campanhas de vacinação não parem. E Que os postos de saúde tomem medidas para evitar aglomeração. Vários países estão tomando essas medidas, para que as pessoas que vão vacinar guardem uma distância um do outro.

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